A Sabedoria e a sua Virtude - 16. Regressar à Raiz



Atinge a Suprema Vacuidade,
E mantém-te em Quietude.
Face à agitação fervilhante das coisas,
Eu contemplo o seu Retorno.
Porque todas as coisas depois de terem florido,
Retornam à sua raiz.
Retornar à raiz chama-se Quietude,
Chama-se retorno ao Destino.
Retorno ao Destino chama-se Constância,
Conhecer a Constância é a Iluminação.
Não conhecer a Constância,
É correr cego para a infelicidade.
Quem conhece a Constância,
Abraça e chega a tudo.
Quem abraça e chega a tudo, será justo,
Sendo justo, será real,
Sendo real, será celeste,
Sendo celeste, fará um com a Sabedoria,
E fazendo um com a Sabedoria persistirá,
Durante toda a sua vida escapa ao perigo.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 15. Evitar a Plenitude



O Governante dos tempos antigos,
Era subtil, penetrante, maravilhoso e profundo.
Demasiado profundo para ser sondado,
Eu sou muito audacioso ao desenhar a sua figura.
Ele era hesitante como é no inverno,
Aquele que atravessa um vau.
Tímido como alguém perante os seus vizinhos,
Por todos os quatro lados.
Circunspecto como um convidado,
Cedendo como gelo que derrete.
Puro e simples como um bloco virgem,
Vazio como um vale,
Turvo como um tanque lamacento.
Quem do turvo ao claro sabe passar sem se mexer?
Quem da inércia ao animado sabe passar movendo-se?
Aquele que tem a Sabedoria não tenta estar cheio.
E como não está cheio,
Sofre a usura dos anos sem declinar.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 14. Conhecer a Origem



Os teus olhos não conseguem vê-la,
O seu nome é Sem Forma.
Os teus ouvidos não conseguem ouvi-la,
O seu nome é Sem Ruído.
As tuas mãos não conseguem agarrá-la,
O seu nome é Sem Corpo.
Insondável qualidade tripla,
E que se funde na unidade.
O seu superior não é claro,
O seu inferior não é escuro.
Move-se sem cessar, sem nome,
Até que tenha regressado,
Ao reino das Sem Coisas.
Forma informe, imagem sem corpo,
Ilusão evanescente.
Acolhe-a, não vês a sua cabeça,
Segue-a, não vês a sua cauda.
Toma as rédeas da antiga Sabedoria,
E terás nas mãos as contingências presentes.
Saber o que ela foi na origem,
É o ponto nodal da Sabedoria.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 13. Amar o Mundo



Acolhe a graça e a desgraça como uma surpresa,
Ama a tribulação como o teu próprio corpo.
Como se deve entender:
“Acolhe a graça e a desgraça como uma surpresa”?
A graça é superior,
A desgraça é inferior,
Obtê-las é uma surpresa,
Assim se deve entender:
“Acolhe a graça e a desgraça como uma surpresa”.
Como se deve entender:
“Ama a tribulação como o teu próprio corpo”?
A tribulação vem do facto de eu ter um corpo.
Se eu não tivesse um corpo,
Onde é que a tribulação me poderia atingir?
Assim se deve entender:
“Ama a tribulação como o teu próprio corpo”.
Quem tem por excelente dar-se ao mundo,
Que lhe emprestem o mundo.
Mas quem cede ao amor quando se dá ao mundo,
Que lhe dêem o mundo.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 12. Controlar os Sentidos



As cinco cores cegam o ver,
Os cinco tons ensurdecem o ouvir,
Os cinco sabores estragam o paladar.
As corridas e as caçadas atordoam,
Os bens raros incitam ao mal.
Por isso o Sábio,
Ocupa-se do ventre e não do olho,
Prefere o interior ao exterior.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 11. Usar o Que Não Há



Trinta raios convergem para o centro,
Mas é o vazio do centro,
Que faz andar o carro.
A argila é moldada para fazer vasos,
Mas é o vazio interior,
Que determina a sua utilização.
Não há casa que não seja fendida por portas e janelas,
Mas é também o vazio,
Que permite a habitação.
O ser tem capacidades,
Que o não ser 1 utiliza.


Notas
  1. Recordemos que o não ser – de que o vazio oferece a imagem – não é aqui o nada absoluto, mas o Princípio incognoscível. [  ]

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A Sabedoria e a sua Virtude - 10. Ser Guia e não Mestre



Poderás tu fazer com que a tua alma abrace o Um,
Numa união indissolúvel?
Poderás tu, concentrando a tua respiração 1, tornares-te
Tão flexível quanto um recém-nascido?
Poderás tu purificar a tua visão interior,
Até a tornares imaculada?
Poderás tu amar o povo e governar o Estado,
Sem usar de subtileza?
Poderás tu abrir e fechar os batentes do Céu 2,
Desempenhando o papel feminino?
Poderás tu tudo ver e tudo conhecer,
Cultivando o não forçar ?

Eleva os seres, alimenta-os,
Sem procurar submetê-los.
Trabalha sem nada esperar,
Sê um guia e não um mestre,
Eis a Virtude misteriosa.


Notas
  1. Tchi significa o ar vital, o pneuma que circula dentro de todo o ser humano e que o sustenta. A técnica respiratória dos taoistas concentra a respiração suprimindo qualquer agitação exterior para atingir a quietude que se relaciona com a mística. [  ]
  2. Quer a dupla Yin-Yang, quer a boca e as narinas. [  ]

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A Sabedoria e a sua Virtude - 9. Evitar o Excesso



Quem apanha e enche sem cessar,
Faz melhor parar.
Quem usa e afia uma espada sem cessar,
Gasta a lâmina rapidamente.
Quem acumula ouro e jade na sua casa,
Não poderá defender a entrada.
Quem se orgulha das riquezas e das honras,
Oferece as costas às calamidades.
Obra feita, vai-te embora,
Tal é a Sabedoria do Céu.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 8. Não Rivalizar



A pessoa do bem supremo é como a água,
A água que tudo favorece e com nada rivaliza.
Reside nas profundezas desdenhadas de cada um,
Está muito perto da Sabedoria.

Escolhe um terreno bom para a tua morada,
Escolhe o profundo para o teu coração,
Escolhe para com os outros a benevolência,
Escolhe nas palavras a verdade,
Escolhe na política a boa ordem,
Escolhe nos negócios a eficácia,
Escolhe para agir a oportunidade.

Não rivalizes: tu serás irrepreensível.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 7. Não Viver para Si Próprio



O Céu subsiste, a Terra permanece,
O que é que os faz permanecer e subsistir ?
Eles não vivem para eles próprios,
Eis o que os faz subsistir e permanecer.
O Sábio põe o seu corpo atrás,
Colocam-no adiante.
Ele não se preocupa com o seu corpo,
Por isso mesmo o seu corpo mantém-se.
Não é verdade que ele não tem eu próprio ?
Por isso mesmo o seu eu se realiza.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 6. Perceber o Subtil



O Espírito do Vale 1 nunca morre,
É o Misterioso Feminino.
A porta do Misterioso Feminino,
É a raiz do Céu e da Terra.
Arrastando-se como uma preguiça a custo existe,
Mas podemos tirar de lá sem que nunca se esgote.


Notas
  1. E do ribeiro que corre nele. [  ]

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A Sabedoria e a sua Virtude - 5. Ficar no Centro



O Céu e a Terra não têm afeições, 1
Para eles tudo é cão de palha. 2
O Sábio também não tem afeições,
Para ele o povo é cão de palha.
O Céu e a Terra são como um sopro,
Vazio e no entanto inesgotável,
Quanto mais se ativa mais sopra.
Bem podemos falar dele mas nada pode sondá-lo,
Mais vale ficar no centro.


Notas
  1. Jen pode significar amor, predileção, ou então a natureza humana. De qualquer forma, é o antropomorfismo que aqui é atacado. [  ]
  2. Levava-se diante dos cortejos funerários cães de palha que tragavam à passagem os espíritos maléficos: «Os cães de palha, antes da oferenda, são guardados em cofres, embrulhados em bela tela, enquanto o representante do defunto e o prior se purificam pela abstinência. Mas, depois da oferenda, eles são lançados ao chão, purificados, queimados, porque se os voltassem a meter no cofre para serem servidos outra vez, cada um dentro da casa seria atormentado por pesadelos» (Tchouang-tzu, capítulo «O Destino do Céu»).[  ]

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A Sabedoria e a sua Virtude - 4. A Natureza da Sabedoria



A Sabedoria é como um vaso vazio sem utilidade,
Um abismo de onde todas as coisas se originam.
Ela lima todas as arestas,
Ela desfaz todos os nós,
Ela funde todas as luzes,
Ela unifica todas as poeiras.
Escondida nas profundezas,
Ela parece ser para sempre.
Filha de quem, eu não sei,
A antepassada do Soberano. 1


Notas
  1. Lao Tsé não se pronuncia sobre a origem da Sabedoria, mas fá-la anterior ao Soberano, deus pessoal único das Odes e dos Anais. [  ]

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A Sabedoria e a sua Virtude - 3. Preservar a Paz



Não exaltes as pessoas de mérito,
Deixarão de disputar.
Não faças caso das coisas raras,
Deixarão de cobiçar.
Não exibas o que provoca inveja,
E o povo terá o coração em paz.

Para governar assim, o Sábio:
Esvazia os corações,
Enche os estômagos,
Enfraquece a ambição,
Fortifica os ossos,
Protege o povo do saber e do desejo,
Faz com que os inteligentes não ousem agir,
Pratica o não forçar,
E tudo regressará à ordem.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 2. Usar a Polaridade



Quando se define o belo aparece o feio,
Quando se define o bom aparece o mau.
Ser e não ser engendram-se,
Fácil e difícil completam-se.
Longo e curto reenviam um para o outro,
Alto e baixo inclinam-se um para o outro.
Voz e som soam juntos,
Antes e depois sucedem-se.
O Sábio governa pelo não forçar,
E ensina com poucas palavras.
Não recusa nada à multidão dos seres,
Mas alimenta-os sem se apropriar.
Realiza sem prevalecer,
Completa sem se prender,
E porque não se prende,
Mantém-se.


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A Sabedoria e a sua Virtude - 1. O Início da Sabedoria



A Sabedoria que se pode enunciar,
Não é a Sabedoria verdadeira.
O nome 1 que a pode nomear,
Não é o Nome verdadeiro.
Sem nome: o Céu e a Terra procedem dela,
Com nome: é a Mãe de todas as coisas.
Esse eterno abismo é a Semente,
Esse eterno ser é a Totalidade.
Dois nomes saídos do Um,
Este dois em um é um mistério.
Mistério dos mistérios,
Porta de todas as maravilhas.


Notas
  1. O texto pode significa quer «o nome que a pode nomear», quer «o nome que pode ser nomeado»; mas, segundo a segunda acepção, a Sabedoria seria susceptível de receber um nome. [  ]

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Início » Textos » A Sabedoria e a sua Virtude » 1. O Início da Sabedoria

Lao Tsé - A Sabedoria e a sua Virtude




Livro da Sabedoria:
  1. O Início da Sabedoria
  2. Usar a Polaridade
  3. Preservar a Paz
  4. A Natureza da Sabedoria
  5. Ficar no Centro
  6. Perceber o Subtil
  7. Não Viver para Si Próprio
  8. Não Rivalizar
  9. Evitar o Excesso
  10. Ser Guia e não Mestre
  11. Usar o Que Não Há
  12. Controlar os Sentidos
  13. Amar o Mundo
  14. Conhecer a Origem
  15. Evitar a Plenitude
  16. Regressar à Raiz
  17. Ser Ignorado
  18. Preservar os Bons Costumes
  19. Regressar à Simplicidade
  20. Abandonar a Vulgaridade
  21. Contemplar o Princípio das Coisas
  22. Ficar Inteiro
  23. Fazer Um com a Sabedoria e a Virtude
  24. Afastar as Presunções Vãs
  25. Seguir os Caminhos da Terra
  26. Ser Pesado e Tranquilo
  27. Seguir a Luz
  28. Ser o Bloco Virgem
  29. Evitar a Extravagância
  30. Ser Resoluto
  31. Evitar a Guerra
  32. Saber Parar
  33. Enfrentar a Morte sem Desfalecer
  34. Esquecer a sua Grandeza
  35. Não Prejudicar
  36. Deixar as Armas na Sombra
  37. Simplicidade sem Desejos
Livro da Virtude:
  1. Rejeitar a Flor e Adotar o Fruto
  2. Não Brilhar nem Fenecer
  3. Regressar
  4. Sustentar e Completar
  5. Buscar a Harmonia
  6. Falar Pouco e Não Forçar
  7. Contentar-se com Pouco e Parar a Tempo
  8. Quietude e Repouso
  9. Contentar-se sem Cessar
  10. Trabalhar sem Forçar
  11. Não Forçar
  12. Conservar o Coração Simples
  13. Não Sobrecarregar
  14. Adorar a Sabedoria e Venerar a Virtude
  15. Cultivar o Constante
  16. Caminhar na Sabedoria
  17. Cultivar a Virtude
  18. Conhecer a Harmonia Perfeita
  19. Saber e Não Falar
  20. Regressar ao Simples
  21. Resplandecer sem Cegar
  22. Despender Avaro
  23. Vigiar o Mundo com Sabedoria
  24. Conquistar Baixando-se
  25. Oferecer a Sabedoria
  26. Crer que Tudo é Difícil
  27. Desejar não Desejar
  28. Regressar à Grande Harmonia
  29. Não Rivalizar com Nada
  30. Ser Misericordioso
  31. Ter a Virtude de Não Rivalizar
  32. Saber Sofrer
  33. Compreender e Praticar
  34. Ver o Conhecimento como Falta de Conhecimento
  35. Amar o Interior
  36. Trabalhar Sem se Esforçar
  37. Não Talhar a Madeira em vez do Carpinteiro
  38. Não Aspirar a Viver Bem Demais
  39. Ser Fraco e Humilde
  40. Dar ao Mundo a Sua Riqueza
  41. Suportar os Males do Reino
  42. Não Ter Preferências Próprias
  43. Contentar-se Com o Que se Tem
  44. Trabalhar Sem Batalhar



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